LiÇÕes de LideranÇa:
Oito liÇÕes que aprendi para ser um lÍder eficaz


Pastor Jan Paulsen, presidente mundial
da Igreja Adventista do Sétimo Dia

Quando reflito em anos passados, é impressionante pensar nas experiências que me vêm à mente. Olhando para meu tempo de infância, vejo alguns paralelos com dois gigantes do reino de Deus. Como o rei Davi, eu era um menino pastor. Cuidava de ovelhas nas colinas no norte da Noruega durante os difíceis dias da guerra e da ocupação, e fazia isso pela promessa de três refeições completas por dia. Como Moisés, lutei contra um problema na fala, que me custou muito tempo e esforço para superar. E aí terminam as semelhanças com esses dois grandes homens de fé.

O testemunho pessoal tem uma rica tradição dentro do Adventismo. No passado, tínhamos “reuniões de testemunhos”. Nós nos reuníamos com a comunidade de fé para compartilhar momentos de nossa caminhada espiritual; para nos lembrar tanto dos tempos difíceis como dos bons; para encontrar força e propósito ao relembrar a fidelidade de Deus.

Olhando para trás, para minha jornada, vejo que, muitas vezes, as experiências mais valiosas em minha vida, e que mais me ensinaram, foram os momentos de fracasso, não os de sucesso. Após 35 anos em vários cargos de liderança na igreja, desde diretor de colégio a presidente de divisão, e agora, presidente da Associação Geral; na África, na Europa e para nossa comunidade global, tive minha parte dessas “experiências de aprendizado”. Delas eu descobri que podemos encontrar honra, mesmo nas falhas, se estivermos preparados para aceitar suas lições; depois levantar e seguir em frente. 

A liderança na nossa igreja, em qualquer nível, pode ser imensamente gratificante ou enormemente frustrante. Pode nos dar uma maravilhosa sensação de paz interior, ou, se me permite, nos engolir vivos. Pode nos ajudar a descansar bem à noite, ou roubar-nos qualquer descanso, noite ou dia. Pode nos energizar e sustentar por toda a vida, ou deixar-nos à procura da primeira saída. 

O que determina como cada um reage às exigências da liderança? Posso falar apenas do meu testemunho e das lições que aprendi ao longo do caminho, lições que muitas vezes tive que aprender, reaprender, e aprender muitas outras vezes.

Base Para LideranÇa 
Em Cristo encontramos o principal modelo para todos os que servem em cargos de liderança na Sua igreja, e em Seu ministério vejo dois valores de máxima importância. 

Primeiro, Cristo mostra que é mais nobre servir do que ser servido. Ele nos ensina que liderança significa servir às pessoas de modo genuinamente desinteressado, sem necessidade de dominar e sem ter o olho em benefícios que possam advir ao longo do caminho.

Segundo, Cristo demonstrou que estava constantemente consciente da presença do Pai. Para mim, isso é tremendamente importante, pois significa supervisão e apoio. “Seu Pai celestial cuida de você” é, para qualquer líder nesta igreja, uma maravilhosa segurança, absolutamente essencial para servir à causa de Deus com compromisso e compaixão. Daí a força e o conforto que sinto quando alguém, com quem nunca me encontrei, vem a mim e diz: “Pastor, quero que saiba que oro pelo senhor todos os dias. Menciono seu nome perante Deus todos os dias.” É impossível descrever quanto isso significa para mim.

Assim, tendo como pano de fundo essas duas perspectivas, modeladas por Cristo, a nobreza do serviço e a consciência de que “seu Pai celestial cuida de você”, pergunto a mim mesmo: “O que aprendi durante todos esses anos?” 

Oito LiÇÕes

1. Aprendi que, nos “negócios” de Deus, sou mão de obra contratada, não o proprietário.
Alguns podem perguntar: “Não seria isso escapismo? Um jeito de se esquivar das responsabilidades?” Não. Para mim, isso descreve a essência da liderança cristã e me esqueço por minha conta e risco. Como mão de obra contratada, não sou governador nem soberano. Não exerço domínio pessoal ou poder. Meu cargo é de confiança; em tudo, nas coisas grandes ou pequenas, devo prestar contas ao Dono. 

O que o Dono espera de mim? A resposta é bem simples: fidelidade. Ele não espera perfeição, pois isso está além de minha capacidade. Mas Ele requer lealdade, fidelidade a Ele e à Sua causa, que não será vendida por preço algum. 

Aprendi, também, que é inútil me preocupar com o sucesso. Como trabalhadores contratados por Cristo, medimos nosso sucesso não pelas realizações, mas em como servimos. Temos feito o que, para nós, é certo? Temos mantido puro nosso coração? Temos dado à causa o melhor de nós? Então, poderemos dormir bem à noite, encontrar descanso para a alma e ter energia para seguir em frente. 

2. . Uma vez que o “negócio” em que estou envolvido é espiritual, aprendi que é de vital importância permanecer próximo às Escrituras, consultá-las e separar tempo para estudá-las.
Mas, ao mesmo tempo, aprendi a não me tornar muito arrogante em minhas próprias interpretações da Palavra de Deus, pois, talvez, eu esteja errado. 

Como testo meus erros e acertos? Leio e oro. Então, converso com meus colegas, mais ou menos nesta ordem. 

3. Aprendi a aceitar a realidade da mudança.
Não importa o que eu venha sentir em relação à mudança, ela virá. Virá porque nossa igreja é dinâmica, é uma comunidade em crescimento. Ela virá simplesmente porque vivemos em um mundo em constante mudança.

Resistir às mudanças, simplesmente porque são mudanças, é inútil. Deve-se, porém, abordar a mudança com olhos abertos, olhando para a frente para ver para onde ela está nos levando. Assim, aprendi a fazer a difícil pergunta: “Serão as mudanças consideradas destrutivas para a personalidade, identidade e valores de nossa igreja, ou irão ajudá-la a funcionar mais efetivamente como um instrumento na missão?” Se estou convencido de que será prejudicial à igreja, luto contra ela. A vida, o testemunho e a unidade da igreja são de importância primordial e as mudanças devem sempre servir a esses objetivos.

Em relação às mudanças, aprendi quão importante é orar, comunicar, consultar, reunir pessoas ao seu lado para não atropelar a própria comunidade que se está liderando. É preciso ter humildade para aceitar que não se pode ver tudo sozinho.

4. que as pessoas são nosso maior recurso e os desafios mais complexos. 
Elas nos tentam, testam e, às vezes, nos levam aos extremos, mas não podemos funcionar sem elas. Assim, como líder, valorize muito seus companheiros de trabalho, coloque-os onde suas habilidades e talentos terão o máximo espaço para criatividade e expressão. Depois, ajude-os a ter sucesso. 

Tenho visto, muitas vezes, a verdade dos escritos de Ellen White sobre um líder que “concebe a ideia de que está numa posição de suprema autoridade, e que todos os seus irmãos, antes de fazerem qualquer movimento de avanço, devem primeiro dirigir-se a ele pedindo permissão para fazer aquilo que eles sentem que devem fazer. Tal homem está numa posição perigosa. Perdeu de vista a obra do verdadeiro Líder do povo de Deus. Em vez de agir como sábio conselheiro, assume as prerrogativas de um governante exigente. Deus é desonrado em toda a exibição de autoridade e exaltação própria dessa natureza” (Testemunhos Para Ministros e Obreiros Evangélicos, p. 491).

5. Aprendi que não tenho de estar certo, pelos menos não sempre.
Não temos que ter todas as respostas. A imagem de invencibilidade não é apenas insegura, é também muito difícil de manter. É bom que o líder saiba que “talvez haja outra maneira melhor de fazer tal coisa”. Declarações dogmáticas e afirmações bombásticas têm suas limitações. Em assuntos difíceis, temos que trabalhar com pequenas margens que requerem compromisso, e eu aprendi o valor de procurar soluções que funcionem. Se algo não funciona, vai morrer.

Aprendi, também, que não devemos ter a pretensão de nunca errar. De que adianta? Todos cometem erros. O que acontece depois é o que importa.

6. Aprendi a crucial necessidade de dar atenção à diversidade de nossa igreja, de cultura, sexo e idade.
Nesses assuntos nunca acertamos. Esse, provavelmente, é o desafio de mais difícil solução, a meu ver. Mas como líderes, temos que demonstrar que temos consciência do tamanho do desafio e fazer esforço genuíno para corrigir as falhas e erros, mesmo que tudo o que se possa fazer agora consista em mostrar a direção para o futuro. Cada membro da família global da igreja tem o igual direito de sentir que é parte, que é legítimo e que participa. 

7. Aprendi a importância de manter uma perspectiva global.
Os líderes de nossa igreja, não importa onde sirvam, têm responsabilidade para com sua grande família espiritual. Você pode ter sido eleito por uma pequena comissão local, mas serve no interesse de muitos. Você pode morar na Califórnia, mas está ligado a Calcutá. Pode gastar seus dias em Londres, mas influenciará vidas no Lagos. Não temos preferências congregacionais, pois somos uma grande família internacional. Assim, quando tomamos decisões administrativas, nunca podemos esquecer nossos irmãos geograficamente distantes, pois, como em uma família, as palavras e atitudes de um afetam a todos.

8. Aprendi, e ainda estou aprendendo, a compreender o imensurável valor da visão, humildade e integridade da liderança adventista.
Visão é manter um ponto de vista claro do lugar para onde estamos indo; humildade define o clima em que faremos a viagem, e integridade é o que define e modela todas as nossas ações ao longo do caminho.

Olhando para Jesus como o principal modelo de liderança, as palavras de João Batista voltam à minha mente: “Convém que Ele cresça e que eu diminua”(João 3:30). Isso não é fácil, pois todos chegamos aos nossos cargos de liderança com nossa falha humanidade, e o interesse próprio anuvia nossa visão. Mas tentamos, e lembramos que quando tudo é dito e feito, tudo o que Ele realmente pede de nós é que sejamos leais e fiéis, e que demos o nosso melhor. Apenas isso. 

Oro para que, em meu serviço, eu seja capaz de engrandecer o nome do Senhor. Essa seria a maior honra. Não posso me esquecer de que, em cada encruzilhada do caminho, Ele me lembra: “Pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o teu Deus” (Mc 6:8, NVI). 

O pastor Jan Paulsen escreve mensalmente para a Adventist World, periódico mensal publicado pela Review and Herald Publishing Association.


Fonte: Adventist World (abril de 2010)
http://portuguese.adventistworld.org/

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