Uma Igreja dinÂmica para tempos difÍceis


Pastor Jan Paulsen, presidente mundial
da Igreja Adventista do Sétimo Dia

Quando estourou a notícia de uma crise econômica mundial em outubro de 2008, mais de trezentos membros da Comissão Executiva da Igreja Adventista do Sétimo Dia, em nível mundial, estavam reunidos em Manila, Filipinas, para discutir questões-chave da administração da igreja. Jan Paulsen, presidente da Associação Geral, sentou-se com o editor da Adventist World, Bill Kott, para discutir algumas das decisões de amplo alcance tomadas no Concílio Anual de 2008.

Bill Knott: Como o senhor explicaria a um membro comum, de uma igrejinha rústica, o benefício advindo de reuniões como o Concílio Anual 2008, fora da América do Norte? O que a igreja ganha com isso?

Jan Paulsen: Enquanto estávamos reunidos em Manila, o mundo passava pelo que foi descrito como “colapso econômico”. Obviamente, isso impacta a todos – indivíduos, organizações e governos. Certamente, também somos atingidos como igreja mundial. Diante desses fatos, alguém pode dizer: “Para que realizar um Concílio Anual fora da América do Norte, com todo esforço e despesa extra que isso demanda?”

Eu responderia: Esse é o preço para manter a família unida! Noventa e quatro por cento dos membros de nossa igreja vivem fora da América do Norte e, por isso, é muito importante que, quando os líderes se reúnem em um concílio, a igreja, em todo o mundo, tenha a sensação de estar no coração do que está acontecendo; seja parte do processo.

Temos aproximadamente 700 mil membros nas Filipinas. Temos universidades, hospitais e outras instituições por todo o país. A igreja é muito conhecida pela mídia secular e pelo governo. Somos conhecidos pela quantidade e pelo nome. Cerca de catorze mil pessoas estiveram presentes ao programa de sábado, em Manila, e houve um maravilhoso senso de confraternização e forte espírito de celebração.

Penso que é saudável para a liderança da igreja mundial enfatizar o caráter global da família de nossa igreja, quando realizamos eventos como esse. Em décadas passadas, foram realizados concílios anuais na América do Sul, América Central, Austrália, Europa e África. Ir para a Ásia, desta vez, foi oportuno.

O senhor está dizendo que, às vezes, é necessária uma movimentação física para outro lugar, para que os membros da igreja creiam que o senhor também está atento aos problemas que existem fora da América do Norte?

Sim, claro. A presença física faz toda a diferença. Por toda a Ásia, os membros viram que nós viemos e que “hasteamos a bandeira”. Isso foi muito significativo para a Igreja Adventista das Filipinas. Os membros sentiram-se felizes com a sua igreja. Puderam celebrar sua força e ser encorajados e motivados por ela.

O senhor já mencionou as notícias da crise econômica global que estourou enquanto estávamos reunidos em Manila. Em que medida isso afetou o curso das reuniões e como o senhor acha que influenciará a igreja nas próximas semanas e meses?

Não há previsões seguras para uma calamidade financeira como essa. Ninguém, no mercado secular, sabe o que acontecerá no dia seguinte, mês ou ano. Nós, que trabalhamos na administração da Igreja, precisamos perguntar: Qual será nossa atitude como Igreja, em meio a tais circunstâncias? Como devemos votar um orçamento? Nossos orçamentos são baseados na fé, fidelidade nos dízimos e nas ofertas para as missões, que serão entregues por nossos membros em 2009. Não sobre o dinheiro que já temos no banco.

Fomos muito abençoados em anos anteriores, e isso nos deu uma forte base para planejar. Mas a incerteza do mercado financeiro atual é sem precedentes na história recente. Portanto, não devemos proceder como se nada houvesse acontecido. Quando apresentamos o orçamento no Concílio Anual, sugerimos à Comissão Administrativa da Associação Geral que a comissão de operação interna tenha a autonomia de fazer ajustes ao orçamento, à medida que observarmos a evolução da economia global.

Em sua opinião, como esses eventos podem afetar o funcionamento da igreja em relação ao orçamento de 2009?

Os membros da igreja devem saber que seguiremos em frente, com cautela e prudência, enquanto esperamos uma definição mais clara do cenário econômico. É importante que também saibam que essas circunstâncias afetarão os recursos disponíveis para o funcionamento de nossa sede mundial. Restringiremos nosso pessoal, deixando de preencher algumas vagas e estudaremos maneiras de reduzir despesas em outras áreas.

Parece que o objetivo de manter uma flexibilidade financeira, a fim de lidar com a realidade econômica atual, convergiu providencialmente com outra questão importante discutida no concílio anual: flexibilidade quanto à estrutura da Igreja.

Sim, a Comissão dos Ministérios, Estruturas e Serviços apresentou seu relatório final e duas recomendações importantes foram aprovadas, por unanimidade, pela Comissão Executiva no Concílio Anual. O que a Comissão Executiva está dizendo com essa recomendação é que somos uma comunidade global, dinâmica e em crescimento. Portanto, é justo perguntarmos, de quando em quando, qual é o caminho mais efetivo e mais adequado a ser seguido. Temos algumas formas e estruturas que foram desenvolvidas há décadas. Será ainda a maneira mais eficiente de a igreja cumprir sua missão? Ou será que o simples crescimento da igreja e a evolução da estrutura em que opera significam que é preciso racionalizar certos processos?

Nos últimos três anos, a comissão tem estudado essas questões. Seus membros têm pesquisado uma vasta quantidade de informações e dados da igreja em todas as partes do mundo. No Concílio Anual 2007, adotamos a primeira parte da recomendação da comissão, ao admitir o princípio da “flexibilidade”, dando à igreja local a habilidade de definir, dentro de alguns limites, as estruturas administrativas que mais se adaptam às necessidades e circunstâncias específicas. Dissemos: “Deve prevalecer um elevado nível de confiança. Há situações em que devemos permitir que a igreja local decida qual a é melhor maneira de prosseguir com nossos valores comuns, nossa identidade e missão, dentro de seu próprio contexto.”

No último Concílio Anual, a comissão pediu para analisarmos, mais uma vez, o melhor método para definir, em nível de Associação Geral, os cargos e departamentos que servem à igreja mundial. A comissão está dizendo: “Vamos expandir esse princípio de flexibilidade e confiança para que a Comissão Executiva da igreja mundial, que se reúne no Concílio Anual, possa responder de forma dinâmica às realidades atuais, rever necessidades e responder rapidamente, se necessário, aos desafios.”

Assim, na assembleia da Associação Geral, em 2010, solicitaremos que considerem a recomendação de permitir à Comissão Executiva maior responsabilidade interna. “O que será melhor para nossa igreja? Qual é o modo mais prudente e sensato de agir? Será que devemos continuar fazendo as coisas da mesma maneira, apenas porque é assim que sempre fizemos?”

É importante lembrar que, ao propor que alguma responsabilidade seja delegada ao Concílio Anual, não estamos falando de um grupo pequeno e não representativo.

Certamente não é uma comissão por telefone!

Não, não! Estamos falando de um grupo de mais ou menos trezentos líderes da igreja, pastores da linha de frente e membros leigos da igreja de cada parte do mundo, que se reúnem no concílio, todos os anos. Esse é um corpo singular, que pode ser menor em número em relação à assembleia, mas não menos representativo.

Com frequência, dizemos, e com razão, que quando a igreja se reúne numa assembleia da Associação Geral, Deus está presente, orientando Sua igreja. Mas acredito que isso também é verdade quando os delegados da assembleia decidem transferir algumas de suas responsabilidades.

A bênção de Deus, Sua presença entre Seu povo, não termina no fim da assembleia.

É verdade! Houve, ainda, uma segunda recomendação importante, feita pela comissão, e que foi adotada no Concílio Anual: que a eleição dos diretores-associados para os departamentos e ministérios da Associação Geral ocorra no primeiro Concílio Anual, após a assembleia.

Qual a vantagem disso? Já atuei como presidente duas vezes na comissão de nomeação da assembleia da Associação Geral, e sei que é muita coisa – muita coisa – para ser resolvida em poucas horas. Em alguns casos, as coisas não são tão bem feitas como deveriam. Esse é um processo que, às vezes, levanta dúvidas. Se, porém, a recomendação da comissão for adotada, isso permitirá que, em assembléias futuras, haja mais tempo para considerar, de modo mais deliberativo, a escolha das pessoas que serão votadas para dirigir os centros administrativos e a liderança dos departamentos.

Segundo, isso permite dois ou três meses para que os diretores eleitos na assembleia pensem, consultem o presidente e a administração, sobre como compor sua equipe. Além disso, disse publicamente em Manila que a comissão de nomeações do Concílio Anual, incumbida de nomear candidatos para os departamentos, deve ser composta de tal modo que reflita adequadamente a igreja mundial; deve representar bem os membros leigos e os pastores distritais.

Quando olhamos para toda a delegação do Concílio Anual, temos a impressão de que ela representa a diversidade racial e étnica da igreja mundial. Mas as estatísticas da igreja mostram que 65 a 70% de nossos membros no mundo são mulheres e não mais de 10% dos delegados são do sexo feminino. Como abordamos essa realidade?

Está provado, historicamente, que esse é um processo lento para nós. O fato de que, em assembleias anteriores da Associação Geral, foi decidido não ordenar mulheres ao ministério, fez com que elas não tivessem acesso semelhante ao dos homens a cargos de liderança. Tem sido difícil encontrar pessoas com preparo e experiência para participar plenamente do processo do Concílio Anual. Mas, sem dúvida, tem que haver maior esforço deliberado para corrigir isso. Precisamos ser mais decididos na escolha de mulheres como membros da Comissão Executiva da Associação Geral. Precisamos de mais jovens leigos, profissionais com menos de 35 anos de idade – não porque desempenhem algum papel na liderança da igreja, mas porque contribuem com competência e habilidade ao tratar dos negócios da igreja. Precisamos igualmente da garantia de que poderão servir por um período de tempo adequado, talvez até dez anos, para que sejam membros produtivos e contribuam com a Comissão Executiva.

Para onde irão as recomendações do Concílio Anual de Manila?

Serão consideradas pelos delegados da Assembleia da Associação Geral de 2010, em Atlanta, EUA, onde certamente gerarão mais debate. Ao longo de todo esse processo, temos dito: 
“Não aprisionemos a igreja com formas rígidas ou estruturas que não possam ser mudadas, as quais se tornaram “santas” simplesmente porque “sempre fizemos desse jeito”. Vamos nos concentrar no todo, nas necessidades e demandas de uma igreja em constante crescimento; em nosso compromisso de procurar caminhos mais adequados para realizar o trabalho da igreja. Em tudo que fizermos, estejamos centrados nas prioridades dos valores da missão e da unidade, e então, avançar com confiança para onde o Senhor nos guiar. 

O pastor Jan Paulsen escreve mensalmente para a Adventist World, periódico mensal publicado pela Review and Herald Publishing Association.


Fonte: Adventist World (janeiro de 2009)
http://portuguese.adventistworld.org/

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