
Pastor Jan Paulsen, presidente mundial
da Igreja Adventista do Sétimo Dia
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A integridade tem sido amplamente discutida na mídia atualmente. Parece que, hoje, temos mais exemplos de corporações e indivíduos que sacrificam os princípios para obter lucro. Assim, provavelmente seja natural que os membros da igreja perguntem: “Como a minha igreja tem agido nesse sentido?”
Primeiro, o que significa ter integridade? Para mim, tem a ver com abertura e confiança: você é o que aparenta. Quando as pessoas o observam, não têm que concluir o que é ou não real. Os valores que você projeta são aqueles que, finalmente, norteiam sua vida.
A integridade abrange um leque de questões quase ilimitado. Vou me concentrar em um apenas. No momento, ouvimos muito sobre o que está acontecendo de errado no mercado financeiro mundial e há um visível sentimento de raiva, de ultraje, para com pessoas que não agiram honestamente nos cargos de confiança. Trata-se de indivíduos motivados por ganância e egoísmo extremos, pensando apenas em “ganhar para si”, e que reivindicam remuneração muito além do que é justo e razoável.
Podem essas práticas nos afetar como igreja? Creio que sim. Não estamos isolados do tipo de controle que isso gera. Nossos membros vivem e trabalham no mercado de trabalho secular e são afetados pelo que acontece ali. Nesse clima econômico, ficam mais atentos à maneira como a igreja usa seu dinheiro, e com razão! Eles devem estar atentos e devem cobrar responsabilidade da liderança da igreja.
Ao falar sobre esse assunto, tenho que me lembrar de que qualquer observação que eu faça, as pessoas têm o direito de perguntar: “E como isso tudo se aplica ao senhor?” Eu não posso falar sobre o assunto, da perspectiva de um espectador; estou realmente falando de como eu, como líder da igreja, também me encaixo nesse cenário.
O senhor mencionou que as pessoas do mundo corporativo, em cargos de confiança, devem respeitar o dinheiro dos outros. A relação de confiança é ainda mais crítica numa comunidade espiritual, não é verdade?
Sim, isso é verdade. Os membros da igreja têm expectativas elevadas justamente porque essa é sua comunidade espiritual. E se você aceita um cargo na igreja, seja qual for, deve se lembrar de que é um servo. A responsabilidade colocada sobre você foi-lhe conferida por sua comunidade de fé e pelo seu Deus. Essa deve ser a motivação principal, uma atitude mental, não salário, bônus e auxílios.
Mas há alguns, dentro da igreja, que recebem funções especiais. Permitir que perguntem: “Quanto recebe alguém com função similar à minha no mundo corporativo secular?” e deixar que a resposta defina suas expectativas de salário, é um modo de pensar fundamentalmente falho.
É errado porque falha em reconhecer que, acima de tudo, eles são parte de uma comunidade espiritual. São servos. Se salário alto for requisito para fazermos o nosso melhor, eu diria que alguma coisa está fundamentalmente errada. Em tudo aquilo em que a igreja estiver envolvida − seja pregando, ensinando, curando, dando assistência ou outro trabalho institucional − ela está primordialmente servindo a Deus e a humanidade.
Por que essa situação foi criada?
Bem, há certas categorias de funcionários – altamente especializados – que estão em demanda na sociedade secular, mas que a igreja também necessita por causa das suas habilidades. Suas funções podem não ser totalmente mantidas pelos recursos da igreja, mas pelo serviço que a instituição oferece, ou, às vezes, por fundos governamentais. Desse modo, alguns, por causa de sua função altamente técnica, devem ser remunerados diferentemente daqueles que, como eu, exercem função pastoral.
Entretanto, eu ainda diria a essas pessoas que ocupam tais funções: “Você também é um servo do Senhor!” Sem dúvida, deve ser remunerado adequadamente, mas chega o momento em que podemos ir além do que é razoável. Quanto recebe o presidente dos Estados Unidos? Seu salário é em torno de 400 mil dólares ao ano. É substancial, mas muito menos do que os líderes do mundo corporativo. As pessoas que servem a uma comunidade espiritual devem evitar até mesmo a aparência de excesso!
Em qualquer discussão sobre integridade dentro da administração da igreja, alguns podem ressaltar: “Houve épocas, na história da igreja, em que não foi tomada a melhor decisão financeira − o estoque de integridade estava baixo.” O que o senhor diz sobre isso?
Por certo, poderíamos fazer uma lista de equívocos, tanto na América do Norte como em outras partes do mundo. O que é importante perguntar é: “Aprendemos alguma coisa com nossos erros?”
Os maiores equívocos que me vêm à mente não foram causados por falhas sistêmicas, no sentido de que não temos comissões ou pessoas em funções com a capacidade e autoridade para supervisão. Nós temos. Mas os problemas surgem quando as informações não fluem de onde deveriam, ou onde membros da comissão de uma organização votam assuntos sobre os quais pouco sabem ou compreendem.
Somos uma comunidade espiritual – oramos antes de cada reunião de comissão ou do comitê executivo. Mas não estamos imunes a falhas humanas. E nem sempre estamos protegidos da deliberada e inaceitável tentativa de alguns líderes de “filtrar” as informações que dão à comissão.
Esses capítulos da história da igreja nos custaram muito, e isso não pode ser medido principalmente pelo dinheiro, mas pela perda da confiança e da boa fé. Isso pode levar anos, e até décadas, para ser reconstruído e, eu diria, é mais do que justo. As pessoas que mantêm a igreja têm a mais alta expectativa de integridade e a maior diligência dos membros das comissões e dos que tomam as decisões administrativas. Assim, nunca é demais alertar sobre a importância da abertura e transparência na administração – permitindo que a comissão tome conhecimento de todas as informações relevantes e de todo o montante de recursos com o qual se está lidando.
Grande parte do mundo sofre com a pobreza. Ela interfere na integridade?
A pobreza pode jogar com a mente. As pessoas podem começar a raciocinar e a justificar certas coisas, ou receber certos recursos que não foram destinados a elas. Se for uma fraude deliberada, a auditoria descobre. Temos um bom sistema de auditoria. Mas a integridade é muitas vezes comprometida, não porque alguém fica rico no processo, mas porque permite ser arrastado para um tipo de administração menos sincera e aberta.
Uma solução, talvez, seria mais envolvimento e supervisão por parte dos leigos em certas funções administrativas?
Na realidade, melhoramos ao adotar essa prática. Já fomos várias vezes cobrados, no passado, por deixar que pastores tomem decisões em áreas nas quais não têm formação. E a crítica é justa. Estamos mais determinados agora a certificar-nos de que as entidades que tomam as principais decisões financeiras, e o conselho administrativo dessas entidades, tenham liderança profissionalmente habilitada para tanto, e isso tem envolvido os membros leigos. Mas nos cumpre dizer que competência em gestão financeira não é privilégio exclusivo de “leigos” ou “pastores”. A aptidão envolve formação, experiência e bom senso, tanto de leigos como de pastores.
Tenho me concentrado principalmente nas situações negativas que podem comprometer a integridade. No entanto, o senhor deve ver, com regularidade, exemplos do lado oposto do espectro, situações em que a integridade se destaca.
Sim, com certeza. Lembre-se de que estamos falando de situações muito específicas. Quando abrimos o jornal ou ligamos a televisão, somos saturados com informações sobre a ganância corporativa e a má gestão. Por isso, é bom que façamos uma autoanálise e perguntemos: “Estamos fazendo o melhor possível para garantir que a igreja não seja invadida por essas práticas?”
Deixe-me dizer claramente: a maior parte de nossas operações, como igreja e instituições, funciona com transparência, abertura, honestidade e boa administração. Ao mesmo tempo, a menos que sejamos muito cuidadosos e ponderados, abrimos as portas para os problemas. Acabo de mencionar a ganância. Você sabe, é muito, muito difícil resistir à ganância, mesmo em pequenas porções. Mas ela irá nos prejudicar. É tão importante reconhecer que satisfação, realização e senso de recompensa justa por nossos esforços devem ser avaliados, não apenas por dinheiro.
Sendo assim, a integridade pública é construída sobre a integridade pessoal, com a certeza de que as prioridades e os valores de nosso pessoal estão em ordem?
Sim. O que você é em seu comportamento e relacionamento pessoal é, basicamente, como será e se comportará em público. Se você decide não ser aberto e honesto em seus negócios particulares e se torna frio e calculista, seus motivos e intenções vão ficando cada vez menos transparentes, tornando-se parte de sua personalidade e influindo no modo como você age na sociedade e na igreja.
Encontro-me com tantas pessoas com as quais trabalho todos os dias, cuja vida é dirigida pela devoção a Deus, lealdade à Sua igreja, senso de serviço e compromisso com a transparência. Infelizmente, também encontro pessoas que venderiam sua integridade por dinheiro. Isso é profundamente decepcionante.
O senhor disse, em várias ocasiões, que a Igreja Adventista deveria estar mais envolvida em campanhas públicas sobre integridade, pois temos muito com que contribuir. Por que a igreja precisa se fazer mais claramente ouvida nesse assunto?
Uma razão muito importante é que essa questão é de imenso valor para os jovens – até 35 anos de idade. Eles têm que confiar em você antes mesmo que você pense em abrir a boca. Precisam sentir que há, pelo menos, o mínimo de integridade e que não precisam se preocupar se há motivos escusos, ou se algo não foi dito de propósito. Eles descobrem, no ato, quando o “discurso” não se alinha com as ações!
Considere, também, o crescimento de nossa igreja. Hoje, talvez, sejamos uma comunidade de cerca de 25 milhões de pessoas, jovens e velhos. Em dez anos, se as coisas continuarem como estão e Cristo não tiver voltado, estaremos próximos a 50 milhões de membros em todo o mundo. Tenho visitado vários líderes de governo e já ouvi alguns dizerem: “Vocês adventistas são bons para nós. Vocês são bons para nossa comunidade e bons para nossa nação.” Mas, em outros lugares, percebi perguntas silenciosas: “Quem realmente são vocês? O que vocês têm para contribuir?” Quero que saibam que os adventistas contribuirão com honestidade, integridade e com o compromisso de servir à humanidade de diversas maneiras; e quero que saibam que sua cidade e seu país serão melhores por causa da nossa presença.
O pastor Jan Paulsen escreve mensalmente para a Adventist World, periódico mensal publicado pela Review and Herald Publishing Association.

Fonte: Adventist World (junho de 2009)
http://portuguese.adventistworld.org/
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